Tenho saudades de um tempo que eu não vivi. De ouvir falar, sinto falta de coisas significativas para mim, coisas simples que eu gostaria de ter vivido, de ter visto, de ter sentido. Como pode uma pessoa ter essa saudade forte, que machuca, sem nem ao menos ter nascido na época? Não sei, mas são coisas que me fazem de tristeza dar risada para não chorar de saudade.
O cheiro do café passado de manhã, o gosto do mate sevado na hora, são coisas que dinheiro nenhum compra. A estrada com aquela carreta grande e imponente passando. Os bois mugindo, ruminando, num compasso com a fina alvorada. Aquela paixão simples, recuada, recolhida num olhar que de malicia não tinha nada. A vida simples, onde o homem trabalhava para comer e não para deixar viúva rica.
Agora, existe a cafeteira, o mate é cheio de química, o dinheiro compra tudo. O progresso foi vindo como um rolo compressor e o asfalto tirou todo o charme da poeira da estrada, velha carreta já não sai do lugar. O mugido foi trocado pela buzina e o compasso da fina alvorada por um céu cinza de fumaça. E a paixão, ah a paixão! Virou malicia, virou atos libertinosos, ninguém mais aceita a cordialidade, apenas a canalhice dos beijos passageiros.
Soberbo vou resistindo, somente o implacável tempo vai forçar a parada dessa saudade. Eu vou cumprir essa sina, embora os tempos mudados, vou mantendo minha tradição, passada de pai para filho. Sim, sou diferente, sou uma poeira já carcomida simbolizando um passado que já não trás interesse. Quando eu for para a eternidade essa tradição vai parar, porque graças ao inevitável progresso essa saudade não vou ter para quem deixar.
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